A complexa invisibilidade da sociedade que ainda ama | Boa Sorte

Um menino tímido e complexado que se faz de invisível, uma mulher com um passado a se julgar – por quem esse menino se apaixona – e um garoto engraçado e cantarolante, melhor amigo da mulher. Sexo, drogas e rock in roll. Isso te lembra algo?

ZUEIRA DIVO

Brincadeira, viu gente!? Até porque nem tem nosso amado beijo gay!

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Mas tem beijo hétero, e outras coisitchas mais!

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Apesar da semelhança evidente, não acredito que haja uma influência direta entre o filme indie, As Vantagens de Ser Invisível, e o filme brasileiro, Boa Sorte. Tudo porque eles seguem por caminhos e contextos diferentes. Boa Sorte com certeza é um respiro que o cinema brasileiro dá ao passo de maturidade – mesmo já havendo filmes muito bons, com direções, textos e atuações espetaculares, como por exemplo o pouco conhecido “Verônica” que – inclusive – merece um texto em breve aqui no blog.

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João (João Pedro Zappa) é um adolescente mórbido, viciado em anti-depressivos, o garoto zanza em seu meio tentando se adaptar a algo natural, tentando ser invisível ao mundo e a sua família. Nisso, a família de João pouco percebe as mudanças do garoto e seu comportamento questionável, como de costume cada qual em seu parentesco está ocupado demais em sua própria vida para atentar aos anseios do garoto de 17 anos. Talvez tarde demais, os pais de João resolvem interná-lo em uma clínica de reabilitação para loucos e viciados. Lá o jovem conhece sua então paixãoJudite (Deborah Secco) – onde os ‘pecados’ começam.

Judite é uma mulher já feita, com um passado terrível, banhado de sexo, drogas e álcool. O que acarretou em uma série de doenças, entre elas o HIV positivo. Porém, ao portar, também, hepatite o tratamento contra o HIV se torna nulo, já que não tem imunidade para suportar o medicamento. Portanto, Judite é uma paciente em estado terminal, e tem consciência disso.

Desta forma, João e Judite passam a viver seu romance proibido, tendo de fundo as paredes decadentes do hospital classe baixa. João, como um bom adolescente apaixonado, passa a viver uma roleta russa, preferindo a morte do que viver sem Judite. Ela, por sua vez, passa a viver um pesadelo em pensar na possibilidade de colocar seu amado sob perigo.

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O estudo que Deborah Secco fez em cima de pacientes em estado semelhante foi visível, a atriz demonstrou que seu território no cinema está muito bem delineado e vai além de belos seios. Deborah se entrega ao papel de modo incrível. João Pedro, por sua vez, faz um belo tímido, mas um amante a desejar – não consigo ver nos olhos do menino amor, apenas um desconforto, inclusive ao contracenar cenas de sexo com a escultural Sra. Secco. Fernanda Montenegro, como avó de Judite, dispensa comentários, a rainha da dramaturgia brasileira mantém sua coroa sem delongas.

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A diretora de Boa Sorte, Carolina Jabor, mostra que tem talento, contudo diversos momentos pude ver cenas que poderiam ter sido 100% melhores, se Carolina tivesse se atentado a detalhes. Há uma cena em especial, que me lembra muito um take de filmagem de Requiem For A Dream, o que não significa cópia, já que Gone Girl também tem uma tomada parecida. Mas a lubrificação da cena não foi eficiente. João está sofrendo, mas não vejo sofrimento no ator, a cena é triste, mas não tem ângulos detalhados e favoráveis a tristeza. E há uma outra cena, bem típica de cinema brasileiro, mas que não precisava ter seguido desta forma, onde João toca no violão para Judite, em cima de uma árvore: a câmera é estática, são intermináveis minutos, chatos, decadentes, sem nexo, um verdadeiro desperdício no meio do filme.

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Não posso postar a cena do filme, senão estaria contando PORDEMAIS! #SPOILER

A fotografia é bonita, não é das melhores, esperava algo meio A Favorita (novela global) – escuro e dessaturado. Mas é só levemente dessaturado. Nada que venha comprometer a trama. O texto é bom, mas sinto que algumas falas soaram forçadas no meio do longa. Há várias trocas de diálogos entre Judite e João que são fora de contexto, soa como uma tentativa forçada de filosofar dentro do filme. Gente, não precisa! A filosofia comportamental pode ser uma saída para a crítica, não precisa ser em falas.

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Falando em crítica, algo que foi MUITO bem abordado, foi a crítica à sociedade focada em seus próprios umbigos, principalmente por meios virtuais. João anda pela cidade e se depara a diversas figuras que não percebem sua presença, não por ele se esgueirar pelos cantos, mas porque não há contato pessoal, não há olho no olho, as pessoas nem sequer olham para o lado. E é tudo muito natural, muito real!

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De início achei o nome uma escolha errada, gostava da sonora de “Soro Positivo“, mas com o decorrer do filme entendi a proposta do “Boa Sorte” e foi uma bela sacada. Em resumo, o filme é um avanço e tenho a impressão de que o cinema brasileiro terá seus dias de glória muito em breve. Portanto, minhas três xícaras e meia, representarão bem o filme, Boa Sorte.

Xícara de avaliação TRES E MEIA

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Guilherme Morais

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